Auto-retrato às cinco para a meia-noite
por
João Carlos Alvim
(texto a incluir em breve na Revista O Voo da Coruja)
fevereiro, 2026
V
Foto Wirestock Freepik - capa do livro O Quarto das Aranhas
Durante anos, aquilo que me sucedeu de mais importante ocorreu entre o sono e a vigília, quando parte do que tinha pensado ou lido nas horas anteriores se esbatia da memória e era substituído por algo que estava há tanto tempo no meu cérebro que me parecia ter estado ali desde sempre. Essas vozes, ou melhor, essas fantasmagorias, não correspondiam a nada que tivesse praticado; também não eram volições, visto que me assaltavam na terra de ninguém que fica algures entre o sono profundo e o prenúncio do despertar, quando os olhos fazem um primeiro esforço para se descerrarem e esse esforço sugere que quando efectivamente se abrirem há um certo número de objecto familiares que encontrarão diante de si. É provável que possa falar-se a seu propósito de sonhos vigis, de desejos intemporais, ainda que não estivesse propriamente acordado quando me concentrava nessas quimeras e as trazia ao limiar da
percepção, onde podia dar-lhes uma intensidade misteriosa, sem com isso lhes conferir nada que se equiparasse à existência. Este ponto é essencial. As pessoas supõem que o que pode suceder-lhes de mais importante pertence por força ao domínio da experiência vivida, daquilo que nalgum momento se cumpriu. Não é verdade: as vidas são muito mais bizarras do que possa pensar-se e só nos marca realmente aquilo que entressonhamos. O objecto com que me confrontava entre sono e vigília, emboscado nos genes ou no inconsciente colectivo, era uma espécie de psicose branca.
Foi assim que, próximo já do meio da minha vida, dei comigo em uma selva escura sem saber que direcção tomar, nem o que fazer dos muitos erros cometidos na tentativa de encontrar um propósito que desse sentido à existência bisonha a que desde o início me parecera estar condenado. E foi tamanho o pânico que me tomou que olhei em volta, a ver se alguém se disporia a acompanhar-me na descida ao inframundo, onde queria apurar quando e como tinham apodrecido as nascentes da humanidade. Não avistei ninguém a quem pudesse recorrer, nem familiar, nem amigo afectuoso, nem transeunte, nem director espiritual. Havia umas figuras indefinidas, no lusco-fusco do entardecer, mas não davam acordo de si, não se percebia se estavam adormecidas ou simplesmente embasbacadas, não era lícito contar com elas. Só eu velava, às voltas com os meus sonhos falhados, alguém que pudesse admirar e temer, uma obra que me desse a noção de ter sido mais lúcido do que os outros, de não precisar da sua atenção por ser capaz de a todos suplantar, uma existência tão livre de regras que me livrasse da mediocridade dos dias. Uma série de ruínas de que era impossível aproveitar fosse o que fosse.
Preciso de ganhar alguma coragem, gritei a dada altura, fazendo com que algumas pessoas olhassem admiradas na minha direcção. De esquecer-me de tudo aquilo que me é familiar, de preparar-me para uma realidade em que o impossível seja mais efectivo do que aquilo que me rodeia. Mas antes: onde arranjar um guia, alguém que me proteja na viagem que ambiciono empreender? E como, se os amigos estão, ou desistentes de tudo, ou entregues a paixões supérfluas cujo mérito sinto dificuldade em entender? O mundo prepara-se para acabar e uma ex-colega de liceu enviou-me ontem, após anos de silêncio, um email a perguntar o que penso de uma discussão que parece estar a ocorrer entre franceses defensores da antiga e da mais recente reforma ortogrática; um velho amigo refugiou-se na casa que a família tem nas Beiras e dedica-se aí à leitura de livrinhos sobre arte floral, para não ter de pensar no que sucede à sua volta; uma mulher que foi já o meu deslumbramento anda reduzida às dores que sente nas articulações e aos pesares das suas circunstâncias, como se houvesse nisso alguma coisa digna de nota. As pessoas recusam-se a ver a escuridão que só eu descortino, a sombra que ameaça todos com uma catástrofe a que poucos lograrão escapar. E continuam a utilizar as palavras de sempre, que são aquelas que lhes asseguram, no meio da vertigem em que andam, alguma forma de serenidade. Atribuem a escuridão a coisas simples de que se fala nas conversas de família, falta de profissionalismo e de educação, perda de qualidade dos governantes, corrupção, imoralidade generalizadas, termos com os quais, ainda que não afugentem os sonhos maus, se concentram em problemas com que apesar de tudo aprenderam a lidar. Outros murmuram entredentes o slogan «vai tudo ficar bem», que é a proposição mais desanimadora que o mundo inventou nas últimas décadas.
Eu, por mim, tenho muito medo. Fui sempre assim, medroso e um pouco atarantado. Pelo menos era o que diziam os meus pais. Imagino que há-de ter sido do susto que me tomou ao nascer, uma espécie de agorafobia, no momento de contemplar as dimensões arrepiantemente amplas do berço em que me depositaram. Depois disso, já se sabe, tudo se agravou, que este nosso mundo não é para graças: reticência em abordar possíveis companheiros de folguedos, não fossem eles repelir-me, receio da catadura pouco amena de algns mestres, timidez paralisadora em face de certas amiguinhas, uma falta de agilidade que me tornava inepto para a maioria dos jogos, mais tarde um acne virulento no rosto e nas costas que repugnava às meninas por quem supunha sentir uma paixão que na realidade não existia, uma grande dificuldade no convívio, em expressar-me em público, uma inapetência pela vida prática de que nunca cheguei a livrar-me por completo. O físico não ajudou, é inegável. Já dei alguns exemplos, mas nestes assuntos convém não ficar a meio caminho, preso a falsos pudores: braços de consistência herbácea como dois talos de couve, mais finos que os dedos de certos latagões; corpo franzino, sem vestígio de musculatura e elasticidade; e o tépido caule, em que não pode pensar-se sem deslustre, útil apenas para algumas puerilidades. Um desastre, em suma. Agravado pela incoincidência entre a matéria-prima e as fantasias de que me alimentava. Quando distante do espelho ou do juízo impiedoso dos outros, bem a coberto das paredes do meu quarto, sob a protecção de mantas e cobertores, ou num dos recantos que elegera para me evadir da maldita vida real que sempre me causou os maiores embaraços – miradouro da capela de Santo Amaro, no Inverno, quando ninguém ali rondava e era só meu o longo murete de onde se avistavam, por entre chuvas e neblinas, o Tejo e as colinas da outra margem –, saía transfigurado de um romance de Zane Grey, Alexandre Dumas ou Campos Júnior, para me bater no cerco de Lisboa de 1384, participar nos combates travados pelos Companheiros de Jéhu contra os simpatizantes de Bonaparte, ou acompanhar Buck Duane em longas cavalgadas pelas planícies do Texas. Vivi sempre assim. Preso a uma série de mentiras de que era a principal vítima e o principal beneficiário, porque me impediam de ver-me tal qual era (se de facto pode chegar a ser-se tal qual se é!) e me proporcionavam uma espécie de segunda vida, completamente fantasiosa, que de toda a forma me permitiu suportar essa coisa desmoralizadora a que chamam o quotidiano, alimentando algumas esperanças em relação a um futuro que não chegaria nunca a materializar-se. Um dia, a mais bonita das rapariguinhas da escola apaixonar-se-ia por mim e manteria comigo uma cumplicidade pura, semelhante à de Gilberte pelo narrador de Em Busca do tempo perdido. Um dia venceria sozinho a revolta dos Boxers em Pequim, facultaria ao Campeador a tomada de Valência, combateria a infâmia de Henrique II com a força das minhas convicções, mais fortes que as de S. Thomas Becket. Seria morto e chorado. Ou sacrificar-me-ia, saindo de cena, para deixar a amada nos braços de outro homem. Em qualquer caso, as proezas realizadas tornar-me-iam decerto uma lenda. Enquanto isso não acontecia, era necessário sobreviver ao peadelo dos dias usuais. Desde que entrara para o Charles Lepierre, a minha avó materna e, creio, a minhã mãe sentiam um grande orgulho pela forma como pronunciava o francês tartamudeante próprio da instrução primária. A avó quis por isso ensinar-me um poema que não recordo, mas que devia ser horrível, para o recitar numa próxima ocasião, à hora do chá, em casa de uma tia rica que a família prezava, não obstante as opiniões pouco ortodoxas da senhora a respeito do Dr. Salazar e do regime. A história da fortuna da minha tia era bastante trivial e reduzia-se a um desses episódios, frequentes entre nós, de brasileiros de torna-viagem que encantam tudo e todos com larguezas miríficas num povo de pedintes e burgueses empobrecidos. À hora aprazada, depois de as duas criadas de fora terem trazido os bules e as chávenas de porcelana para umas mesinhas em torno das quais se arrumavam as senhoras ali presentes, levantei-me, muito vermelho, e, a um sinal imperioso de minha avó, debitei como uma torneira gorgolejante aqueles versos que felizmente não recordo, mas que devem ter-me escorrido da boca cheios de virtude e bons sentimentos. Quando terminei, houve uns vagos aplausos e as senhoras cumprimentaram a minha avó e a minha mãe pela precocidade de que o menino dera provas. Segundos depois, pedi licença e fui brincar sozinho para o quintal, onde desabafei, junto a uma capoeira em que uns galináceos debicavam a sua pitança de milho, a vergonha e a imensa tristeza que tinham tomado conta de mim. Há-de ter sido por alturas das eleições ditas do Delgado, em 1958, quando os pilares do regime começaram a tremer nas suas bases. Em minha casa, tinha-se acompanhado, em ânsias, as desordens de Santa Apolónia e celebrara-se com alívio a eleição de Américo Tomaz. Os nossos familiares mais bafejados pela sorte ficaram, porém, desiludidos: queriam a democracia desse lá por onde desse, que viam como uma espécie de tertúlia elegante em que se conversava de tudo e de nada, em voz baixa e com boas maneiras.
Eu, naturalmente, estava distante dessas preocupações. Não que a política me fosse indiferente. Com seis anos, tinha vivido por intermédio do pequeno rádio de casa as horas dolorosas do esmagamento da Hungria pelos tanques russos. Ficara nessa altura a saber que «a verdade é só uma – rádio Moscovo não fala verdade», ideia de que depois nunca me afastei. Senti sempre uma vaga embirração pelo poder czarista, soviético ou putinista, que me faz ainda hoje detestar todos os que a Ocidente, supondo terem para isso boas razões, decidem justificá-lo ou apoiá-lo.
Tudo isso, porém, eram apenas bagatelas, antevisões frustes de um massacre que comecei a sonhar em criança. Faltava ainda o essencial: que uma das vozes que me ancorara no cérebro como a nave dos loucos me chamasse por fim à realização das minhas artes.minhas artes.
Foi assim que, próximo já do meio da minha vida, dei comigo em uma selva escura sem saber que direcção tomar, nem o que fazer dos muitos erros cometidos na tentativa de encontrar um propósito que desse sentido à existência bisonha a que desde o início me parecera estar condenado. E foi tamanho o pânico que me tomou que olhei em volta, a ver se alguém se disporia a acompanhar-me na descida ao inframundo, onde queria apurar quando e como tinham apodrecido as nascentes da humanidade. Não avistei ninguém a quem pudesse recorrer, nem familiar, nem amigo afectuoso, nem transeunte, nem director espiritual. Havia umas figuras indefinidas, no lusco-fusco do entardecer, mas não davam acordo de si, não se percebia se estavam adormecidas ou simplesmente embasbacadas, não era lícito contar com elas. Só eu velava, às voltas com os meus sonhos falhados, alguém que pudesse admirar e temer, uma obra que me desse a noção de ter sido mais lúcido do que os outros, de não precisar da sua atenção por ser capaz de a todos suplantar, uma existência tão livre de regras que me livrasse da mediocridade dos dias. Uma série de ruínas de que era impossível aproveitar fosse o que fosse.
Preciso de ganhar alguma coragem, gritei a dada altura, fazendo com que algumas pessoas olhassem admiradas na minha direcção. De esquecer-me de tudo aquilo que me é familiar, de preparar-me para uma realidade em que o impossível seja mais efectivo do que aquilo que me rodeia. Mas antes: onde arranjar um guia, alguém que me proteja na viagem que ambiciono empreender? E como, se os amigos estão, ou desistentes de tudo, ou entregues a paixões supérfluas cujo mérito sinto dificuldade em entender? O mundo prepara-se para acabar e uma ex-colega de liceu enviou-me ontem, após anos de silêncio, um email a perguntar o que penso de uma discussão que parece estar a ocorrer entre franceses defensores da antiga e da mais recente reforma ortogrática; um velho amigo refugiou-se na casa que a família tem nas Beiras e dedica-se aí à leitura de livrinhos sobre arte floral, para não ter de pensar no que sucede à sua volta; uma mulher que foi já o meu deslumbramento anda reduzida às dores que sente nas articulações e aos pesares das suas circunstâncias, como se houvesse nisso alguma coisa digna de nota. As pessoas recusam-se a ver a escuridão que só eu descortino, a sombra que ameaça todos com uma catástrofe a que poucos lograrão escapar. E continuam a utilizar as palavras de sempre, que são aquelas que lhes asseguram, no meio da vertigem em que andam, alguma forma de serenidade. Atribuem a escuridão a coisas simples de que se fala nas conversas de família, falta de profissionalismo e de educação, perda de qualidade dos governantes, corrupção, imoralidade generalizadas, termos com os quais, ainda que não afugentem os sonhos maus, se concentram em problemas com que apesar de tudo aprenderam a lidar. Outros murmuram entredentes o slogan «vai tudo ficar bem», que é a proposição mais desanimadora que o mundo inventou nas últimas décadas.
Eu, por mim, tenho muito medo. Fui sempre assim, medroso e um pouco atarantado. Pelo menos era o que diziam os meus pais. Imagino que há-de ter sido do susto que me tomou ao nascer, uma espécie de agorafobia, no momento de contemplar as dimensões arrepiantemente amplas do berço em que me depositaram. Depois disso, já se sabe, tudo se agravou, que este nosso mundo não é para graças: reticência em abordar possíveis companheiros de folguedos, não fossem eles repelir-me, receio da catadura pouco amena de algns mestres, timidez paralisadora em face de certas amiguinhas, uma falta de agilidade que me tornava inepto para a maioria dos jogos, mais tarde um acne virulento no rosto e nas costas que repugnava às meninas por quem supunha sentir uma paixão que na realidade não existia, uma grande dificuldade no convívio, em expressar-me em público, uma inapetência pela vida prática de que nunca cheguei a livrar-me por completo. O físico não ajudou, é inegável. Já dei alguns exemplos, mas nestes assuntos convém não ficar a meio caminho, preso a falsos pudores: braços de consistência herbácea como dois talos de couve, mais finos que os dedos de certos latagões; corpo franzino, sem vestígio de musculatura e elasticidade; e o tépido caule, em que não pode pensar-se sem deslustre, útil apenas para algumas puerilidades. Um desastre, em suma. Agravado pela incoincidência entre a matéria-prima e as fantasias de que me alimentava. Quando distante do espelho ou do juízo impiedoso dos outros, bem a coberto das paredes do meu quarto, sob a protecção de mantas e cobertores, ou num dos recantos que elegera para me evadir da maldita vida real que sempre me causou os maiores embaraços – miradouro da capela de Santo Amaro, no Inverno, quando ninguém ali rondava e era só meu o longo murete de onde se avistavam, por entre chuvas e neblinas, o Tejo e as colinas da outra margem –, saía transfigurado de um romance de Zane Grey, Alexandre Dumas ou Campos Júnior, para me bater no cerco de Lisboa de 1384, participar nos combates travados pelos Companheiros de Jéhu contra os simpatizantes de Bonaparte, ou acompanhar Buck Duane em longas cavalgadas pelas planícies do Texas. Vivi sempre assim. Preso a uma série de mentiras de que era a principal vítima e o principal beneficiário, porque me impediam de ver-me tal qual era (se de facto pode chegar a ser-se tal qual se é!) e me proporcionavam uma espécie de segunda vida, completamente fantasiosa, que de toda a forma me permitiu suportar essa coisa desmoralizadora a que chamam o quotidiano, alimentando algumas esperanças em relação a um futuro que não chegaria nunca a materializar-se. Um dia, a mais bonita das rapariguinhas da escola apaixonar-se-ia por mim e manteria comigo uma cumplicidade pura, semelhante à de Gilberte pelo narrador de Em Busca do tempo perdido. Um dia venceria sozinho a revolta dos Boxers em Pequim, facultaria ao Campeador a tomada de Valência, combateria a infâmia de Henrique II com a força das minhas convicções, mais fortes que as de S. Thomas Becket. Seria morto e chorado. Ou sacrificar-me-ia, saindo de cena, para deixar a amada nos braços de outro homem. Em qualquer caso, as proezas realizadas tornar-me-iam decerto uma lenda. Enquanto isso não acontecia, era necessário sobreviver ao peadelo dos dias usuais. Desde que entrara para o Charles Lepierre, a minha avó materna e, creio, a minhã mãe sentiam um grande orgulho pela forma como pronunciava o francês tartamudeante próprio da instrução primária. A avó quis por isso ensinar-me um poema que não recordo, mas que devia ser horrível, para o recitar numa próxima ocasião, à hora do chá, em casa de uma tia rica que a família prezava, não obstante as opiniões pouco ortodoxas da senhora a respeito do Dr. Salazar e do regime. A história da fortuna da minha tia era bastante trivial e reduzia-se a um desses episódios, frequentes entre nós, de brasileiros de torna-viagem que encantam tudo e todos com larguezas miríficas num povo de pedintes e burgueses empobrecidos. À hora aprazada, depois de as duas criadas de fora terem trazido os bules e as chávenas de porcelana para umas mesinhas em torno das quais se arrumavam as senhoras ali presentes, levantei-me, muito vermelho, e, a um sinal imperioso de minha avó, debitei como uma torneira gorgolejante aqueles versos que felizmente não recordo, mas que devem ter-me escorrido da boca cheios de virtude e bons sentimentos. Quando terminei, houve uns vagos aplausos e as senhoras cumprimentaram a minha avó e a minha mãe pela precocidade de que o menino dera provas. Segundos depois, pedi licença e fui brincar sozinho para o quintal, onde desabafei, junto a uma capoeira em que uns galináceos debicavam a sua pitança de milho, a vergonha e a imensa tristeza que tinham tomado conta de mim. Há-de ter sido por alturas das eleições ditas do Delgado, em 1958, quando os pilares do regime começaram a tremer nas suas bases. Em minha casa, tinha-se acompanhado, em ânsias, as desordens de Santa Apolónia e celebrara-se com alívio a eleição de Américo Tomaz. Os nossos familiares mais bafejados pela sorte ficaram, porém, desiludidos: queriam a democracia desse lá por onde desse, que viam como uma espécie de tertúlia elegante em que se conversava de tudo e de nada, em voz baixa e com boas maneiras.
Eu, naturalmente, estava distante dessas preocupações. Não que a política me fosse indiferente. Com seis anos, tinha vivido por intermédio do pequeno rádio de casa as horas dolorosas do esmagamento da Hungria pelos tanques russos. Ficara nessa altura a saber que «a verdade é só uma – rádio Moscovo não fala verdade», ideia de que depois nunca me afastei. Senti sempre uma vaga embirração pelo poder czarista, soviético ou putinista, que me faz ainda hoje detestar todos os que a Ocidente, supondo terem para isso boas razões, decidem justificá-lo ou apoiá-lo.
Tudo isso, porém, eram apenas bagatelas, antevisões frustes de um massacre que comecei a sonhar em criança. Faltava ainda o essencial: que uma das vozes que me ancorara no cérebro como a nave dos loucos me chamasse por fim à realização das minhas artes.minhas artes.
Comentários
Este é um espaço de debate e troca de ideias.
Envie-nos o seu comentário por e-mail para :
espacoulmeiroassoc.cultural@gmail.com