Homenagem a José Ribeiro
por
António Lobo Antunes
António Lobo Antunes e José Antunes Ribeiro na Ulmeiro,anos 90
Há pessoas que gostam de livros. Há pessoas que vendem livros. Há pessoas que editam livros. Conheço uma única pessoa que, por amor deles, os vende , os edita , os colecciona , os lê e , coisa ainda mais incomum , não sendo rico os oferece àqueles que considera partilharem da sua paixão: chama-se José Ribeiro, José Antunes Ribeiro e tem a inocência generosa de um menino por baixo dos caracóis grisalhos , do sorriso largo , dos óculos quase tão transparentes como os olhos , do dedinho misterioso a inventariar lombadas . Fez a Assirio & Alvim , fez a Ulmeiro e tirando os momentos em que surge por acaso à superfície da terra, alegre de uma meninice enternecida, habita uma cavezinha de Benfica, três ou quatro compartimentos pequenos semelhantes a corredores , a copas , a casulos, a nichozitos de abelha onde o seu corpo grande se move numa agilidade insuspeita entre páginas e páginas e páginas impressas, mostrando , procurando , dando
- Tem isto?
- Conheces ?
- Já leste ?
no orgulho humilde, fraternal, de que a sua amizade é limpamente feita . Se não fosse o José Ribeiro detestava a Avenida do Uruguai.
Puseram prédios e prédios onde eu em pequeno acompanhava a criada a buscar o leite à quinta que na minha infância por ali havia, puseram prédios e prédios sobre o meu passado , afogaram de boutiques e pastelarias lugares em que fui feliz outrora, destruíram uma fiada de vivendas habitadas por pessoas que não sendo da minha família se tornaram parte dela , o general idoso embrulhado numa manta , a senhora feroz , pequenina, elétrica, com cães ferozes pequeninos e elétricos , que me ensinava inglês entre latidos , a avó Galhó e a sua imensa trémula colecção de gatos de vidro, os seus poemas de Gomes Leal , a sua cozinheira zarolha Rosa portões de quinta, pilares , searas , buganvílias e vestíbulos escuros estagnados num inverno perpétuo, impermeável ao sol ,um senhor de cabelo branco doente numa cama ( mas não havia morte, durante muito tempo nunca houve a morte , a morte eram santínhos com retratos ovais no missal da minha mãe, eu era eterno , em que altura, meu Deus , deixei de ser eterno, eu que fui eterno tantos anos ) a carroça do azeiteiro, os rebanhos , tardes mais compridas que uma lição de História .
Puseram prédios e prédios e gente que não me trata por menino, que não me trata por António no lugar das bilhas de leite, da espuma que fervia , passeio de loja em loja como um rafeiro em busca do osso enterrado algures num lugar que esqueceu , e acabo , perdido, por tocar à campainha da cave do José Ribeiro, desço os degraus às escuras ( não sei porque não há luz nas escadas e pensando melhor prefiro assim, uma sombra misteriosa , uma expectativa de surpresa) aparece uma claridadezita lá no fundo e de repente , na moldura da porta, os caracóis grisalhos , os óculos , o sorriso , o escritório como os escritórios dos avós, pilhas de livros , embrulhos de livros , caixotes de livros , estantes de livros, cheiro de livros ( o Paraíso ) e aquele São Pedro bonacheirão
- Tens isto?
- Conheces?
- Já leste?
na delicada atenção que só os camponeses possuem , na tranquila solicitude da amizade , nós dois a vasculharmos títulos três ou quatro metros abaixo do nível do chão, curvados como mineiros , afastando, juntando, descobrindo
- Não tenho
- Não conheço
- Não li
subimos à superfície carregados de sacos como Pais Natais felizes, os prédios da Avenida do Uruguai e ouvem-se os rebanhos outra vez até ao momento em que nos separamos e a ausência do José Ribeiro me torna adulto de novo, sem viço nem graça, um pobre adulto dentro de um automóvel amolgado , aguardando a lição de infância que o olhar dele me sabe dar.
- Tem isto?
- Conheces ?
- Já leste ?
no orgulho humilde, fraternal, de que a sua amizade é limpamente feita . Se não fosse o José Ribeiro detestava a Avenida do Uruguai.
Puseram prédios e prédios onde eu em pequeno acompanhava a criada a buscar o leite à quinta que na minha infância por ali havia, puseram prédios e prédios sobre o meu passado , afogaram de boutiques e pastelarias lugares em que fui feliz outrora, destruíram uma fiada de vivendas habitadas por pessoas que não sendo da minha família se tornaram parte dela , o general idoso embrulhado numa manta , a senhora feroz , pequenina, elétrica, com cães ferozes pequeninos e elétricos , que me ensinava inglês entre latidos , a avó Galhó e a sua imensa trémula colecção de gatos de vidro, os seus poemas de Gomes Leal , a sua cozinheira zarolha Rosa portões de quinta, pilares , searas , buganvílias e vestíbulos escuros estagnados num inverno perpétuo, impermeável ao sol ,um senhor de cabelo branco doente numa cama ( mas não havia morte, durante muito tempo nunca houve a morte , a morte eram santínhos com retratos ovais no missal da minha mãe, eu era eterno , em que altura, meu Deus , deixei de ser eterno, eu que fui eterno tantos anos ) a carroça do azeiteiro, os rebanhos , tardes mais compridas que uma lição de História .
Puseram prédios e prédios e gente que não me trata por menino, que não me trata por António no lugar das bilhas de leite, da espuma que fervia , passeio de loja em loja como um rafeiro em busca do osso enterrado algures num lugar que esqueceu , e acabo , perdido, por tocar à campainha da cave do José Ribeiro, desço os degraus às escuras ( não sei porque não há luz nas escadas e pensando melhor prefiro assim, uma sombra misteriosa , uma expectativa de surpresa) aparece uma claridadezita lá no fundo e de repente , na moldura da porta, os caracóis grisalhos , os óculos , o sorriso , o escritório como os escritórios dos avós, pilhas de livros , embrulhos de livros , caixotes de livros , estantes de livros, cheiro de livros ( o Paraíso ) e aquele São Pedro bonacheirão
- Tens isto?
- Conheces?
- Já leste?
na delicada atenção que só os camponeses possuem , na tranquila solicitude da amizade , nós dois a vasculharmos títulos três ou quatro metros abaixo do nível do chão, curvados como mineiros , afastando, juntando, descobrindo
- Não tenho
- Não conheço
- Não li
subimos à superfície carregados de sacos como Pais Natais felizes, os prédios da Avenida do Uruguai e ouvem-se os rebanhos outra vez até ao momento em que nos separamos e a ausência do José Ribeiro me torna adulto de novo, sem viço nem graça, um pobre adulto dentro de um automóvel amolgado , aguardando a lição de infância que o olhar dele me sabe dar.
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